terça-feira, 29 de setembro de 2015

Família, família! Papai, mamãe, titia?

Maria e Eduardo se casaram logo depois da faculdade. Tiveram seu primeiro filho, Carlos, logo depois. Quando Carlos tinha 2 anos, Maria faleceu. Quando Eduardo ajudou Carlos com a mudança para o dormitório da faculdade, 16 anos depois, os dois se emocionaram ao lembrar de tudo que haviam vivido até ali. Hoje eles não são mais uma família.

Joana e Clóvis se conhecem desde os 7 anos de idade, do primeiro dia de aula. Sempre estiveram um do lado do outro. Semana que vem vai fazer 40 anos que estão juntos. Eles nunca assinaram nenhum papel, nem foram abençoados por autoridade de qualquer religião. Fazem questão de deixar claro que o que lhes une é o conforto que encontram um no outro e não uma obrigação moral ou civil. Bom, eles não são uma família.

Juliana conheceu Melissa quando namorava Rodrigo, que era caixa do banco em que esta trabalhava. Com o passar do tempo, Juliana e Melissa perceberam que haviam nascido uma para outra. Elas se casaram mês passado, e Rodrigo fez questão de ser padrinho. É, elas não são uma família.

João tem 3 cachorros: peri, ceci e chulé. Ele adotou o primeiro por recomendação de seu terapeuta, após uma severa crise de ansiedade. Resgatou o segundo na rua, em uma noite fria e chuvosa. Foi adotado pelo terceiro, que o seguia todos os dias no caminho para o trabalho. Por sair para passear com seus cachorros todos os dias, pela manhã e pela noite, João e sua tropa são conhecidos pela maioria dos moradores do bairro, que os cumprimentam de passagem e adoram brincar com o trio de coleira. Imagina! Claro que eles não são uma família.

Daniel e Marcos adotaram Marcela quanto ela tinha 4 anos. Ela viveu em um orfanato por 2, após seu pai ser preso por colocar sua mãe no hospital depois de uma surra. A mãe de Marcela não sobreviveu à agressão. Hoje, com 8 anos, Marcela está ajudando Daniel a preparar a casa para receber Ricardo, seu novo irmãozinho. O pai de Marcos foi com ele buscar o bebê, porque estava mais do que ansioso para conhecer o novo neto. Eles jamais serão uma família.

Daniel sofreu um pouco quando Alice e Rafaela decidiram se separar, depois de 15 anos de relacionamento. Na época, ele tinha 12 anos. Hoje, com 19, ele entende que foi o melhor para suas mães. Ele e sua namorada Lídia moram com Alice e sua nova esposa, Marta; mas visitam Rafaela e sua outra filha, Tatiana, toda semana. Daniel está ensinando violão para a irmã que, segundo ele, tem um talento nato para música. Não, eles não são uma família.

Quando Rogério pegou seu diploma de formatura na faculdade de medicina, olhou direto para a plateia procurando a avó. Só ela sabia o sufoco que tinha sido chegar até ali. Ela o criou desde menino e os dois trabalharam não-sei-quantos turnos na loja de departamentos pra garantir que ele continuasse estudando. Agora ela vai se aposentar, e é ele quem vai cuidar dela. E eles também não são uma família.


Essas e muitas outras pessoas serão afetadas pelo insano Estatuto da Família que estão empurrando goela abaixo da sociedade brasileira. Não consigo formular uma frase direta que contenha todo o desespero que isso me causa. Não sei como terminar esse texto. Não, não. Apenas não. Não dá. Não.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Carta para Isabela

Seja bem vinda, minha flor!

Eu sei bem como é ser a primeira menina da fornada (pelo menos a primeira do nosso cantinho da tua família). Daqui a pouco a turma adulta já estará reforçando com os primos (o Bê, o Vi, o LG, e até o Gabi, que chega daqui a pouco) que eles precisam cuidar de ti. E no final tu é que vai acabar cuidando deles, vai por mim!

Espero que vocês construam uma relação tão gostosa quanto a que temos hoje, no momento que você chega ao mundo. Nós, a cambada de parentes do vô Rogério, somos gente de todo o tipo, espalhada por vários cantos. Mas existe muito amor e a gente sempre dá um jeito de se ajudar (e de se juntar pra dar risada). Eu adoro estar nessa família, ainda mais agora que tu fazes parte dela!

Eu quase consigo sentir daqui (da lonjura onde estou) a alegria do teu pai, da tua mãe, dos teus avós, da tua bisa... Eles não viam a hora de te abraçar. Eles te esperaram com muita ansiedade e pediram com todas as forças pra que você viesse bem. E a partir de hoje, todos os dias, eles vão pedir com mais força ainda pra que a tua vida seja linda.

Se como “tia-prima” posso te dar qualquer conselho de partida, te digo o seguinte: tu nasceste princesa, mas não precisa ser uma se não quiser, ok? Pode ser o que quiser. Lembre-se disso. Não ligue para essa história de coisa de menino ou de menina que talvez te digam por aí. Viva como se só existissem “coisas de Isabela”. Desejo, de coração, que tu sejas livre nas tuas escolhas e que o mundo esteja ao teu alcance.

Tenha uma vida linda, Isabela! Seja muito feliz!

Beijos!

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Lendo o jornal

E em meio a desastres (naturais ou nem tanto) que acabam com a vida de milhares em poucos instantes...
E sabendo do massacre de educadores não só em protestos, mas todos os dias quando não são munidos com o necessário para compartilhar conhecimento e pensamento crítico...
E observando a mistura tóxica e explosiva de mentes assustadoras liderando uma massa feita de intolerância e preguiça...
E lendo comentários de ódio a todo e qualquer diferente...
E sentido que o resultado de se informar a respeito do mundo é acumular um profundo sentimento de medo, tristeza e desengano...
Eu leio isso:




















E lembro que não dá pra desistir de um mundo que ainda tem esse tipo de sentimento.
Não dá pra desanimar. Não dá pra esmorecer. “Não podemo se entregá!”.

Por que o mundo em que o Gabi vai viver tem que ter lindeza o suficiente pra que ele possa experimentar esse amor imensurável de todas as formas.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Pra recomeçar...

Prometi que escreveria logo e contaria por aqui como está a vida no Oriente Médio.
O desafio é grande, mas não por falta do que escrever.
Acontece que hoje tenho em mim tudo que li, ouvi falar e imaginei sobre a vida pelas bandas de cá.
E, a cada dia, vejo como isso é torto e parcial. Nem sempre errado, mas diferente.
Por isso quero ir devagar.

E vou começar pelo dia da partida.
Embarquei em Guarulhos, à 1h do dia 11 de março de 2015.
Exatamente nesse dia, 1 ano antes, eu fumei meu último cigarro ali em Guarulhos mesmo, antes de embarcar para outra viagem.
Lembro de ter pensado, na época, que se aquela tentativa desse certo eu precisava lembrar daquele dia pra poder celebrar.
E ali estava eu, embarcando para uma vida nova... que teoricamente durará mais (rá!).

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Arco-íris 12 segunda-feira Jaca

Para continuar a leitura, por favor, repita a contrassenha pulando num pé só.

Essa mensagem é para você, meu amigo gênio.

Eu sei, é perigoso. Mas preciso deixar um registro. É pra nossa segurança.

Você sabe que estou falando com você. Mas cuidado, o PT e a CIA ainda não te identificaram, então não dê bobeira.

Ah, mas do que estou falando? Logo você, o grande cérebro por trás da identificação e divulgação de tantos complôs e armações para nos ludibriar. Nós, pobres cidadãos ignorantes.

Você não cometeria esse erro. Você vê a verdade por trás das manchetes e memes.

Você é tão superior que não precisa nem ler o conteúdo.

Eu tanto queria ter esse poder de ver uma informação, decidir que é verdade e que fará bem ao povo ter acesso a ela, e compartilhar o mais rápido possível.

Contorço-me de inveja da tua capacidade de discernir o que é justo e digno dos homens de bem, e de colocar o resto todo na lixeira dos imorais idiotas comedores de criancinhas.

Essa ralé intelectual e sua mania de checar fontes e entender fatos. Bastardos! Por causa desses imbecis estamos ainda aqui, nesse mundo cheio de marginais meliantes e seus justiceiros insuportáveis.

Ainda bem que temos você para nos apontar o caminho. Você, que não lê, não escuta e não discute. Você que generosamente compartilha com essas almas perdidas sua opinião. Sua opinião brilhantemente construída com base no cocô do duende da verdade que mora na privada do templo do oráculo.


A você, meu salve!

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Mais uma carta

A todas as crianças que choram por motivos que só adultos, ou nem eles, deveriam chorar:

Esse é um pedido de desculpas, em meu nome e em nome de milhões de pessoas que minha fé na existência do bem me diz que pensam como eu.

Desculpem-me pelas bombas, pelos machucados, pelos enterros e pela saudade.
Desculpem-me pelo ódio, pelos abusos, pela fome e pelo frio.
Desculpem-me pelos deuses que justificam suas misérias.
Desculpem-me pelas doenças e pela agonia da espera pelo fim.
Desculpem-me se vocês tiveram que pegar em armas, que casarem e procriarem, que passarem horas na roça ou no chão da fábrica.
Desculpem-me pelos psicotrópicos e pelas tentativas de padronização.

Eu lhes devo mais explicações a respeito das guerras, do ódio racial e religioso, das convenções que permitem abusos desprezíveis, e da preguiça da sociedade em tomar conta de vocês.

Eu poderia dizer que existe tanta ignorância e medo no mundo que tudo que algumas pessoas precisam é de um líder maníaco, e que então nações inteiras concordam e cometem barbáries inexplicáveis.

Eu poderia argumentar que cultura não se questiona, e que é por isso que ainda permitimos meninas de 8 anos casando-se com senhores de 40. É por isso que toleramos a penalização do homossexualismo com pena de morte. É por isso que jogamos bombas em escolas. Para defender o que nosso povo acredita, nossa raça, nosso deus.

Eu também poderia dizer que a pobreza de algumas regiões faz com que seus governos não consigam os subsídios necessários para garantir que você vá pra escola e fique lá até a hora de sair. Que isso faz parte da economia, e que eles fazem o que podem.

E eu poderia dizer que as mazelas do mundo são tantas, e que trabalhamos tanto, e que estamos tão estressados. Se não nos sobra disposição para acompanhar seu desenvolvimento e participar de suas vidas é porque lhes amamos, e estamos fazendo de tudo para garantir que vocês tenham um bom futuro. Temos muitas coisas pra resolver, e vocês são uma delas. E é aí que entram os remedinhos e as telas da TV, do computador, do celular, do game.

Eu poderia dizer tudo isso, mas de que valeria?
Essas foram as desculpas que me deram. E elas tiveram tanto impacto na minha vida que, vejam vocês, vivo com genocídios, epidemias, estupros, corrupção, mentiras, injustiças e negligências bem debaixo do meu nariz. Eu a maior parte da minha geração sofremos imensuravelmente ao saber de tudo isso. Mas, na prática, não fazemos nada. Nadica de nada. Necas de pitibiriba.

Eu não tenho como providenciar uma explicação que JUSTIFIQUE o sofrimento que vocês estão passando. Muito provavelmente, eu também não vou fazer nada pra que esse sofrimento, de fato, diminua. Então eu quero pedir desculpas. Mil desculpas. Mesmo.
Prometo que, dentro do meu minúsculo universo, vou tentar fazer todas as escolhas que possam lhes ajudar. Mesmo que o impacto disso seja equivalente ao do soco de uma formiga.


Mais uma vez, desculpem-me.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Você tem medo de quê?

A gente acha que sabe o que é medo. Aquele mal estar na hora da injeção, a vontade de virar o rosto no meio de uma cena de suspense na TV, o frio na barriga ao olhar pra baixo em uma ribanceira.

Aí vem um susto daqueles sérios de verdade e a gente pensa que trocaria aquela sensação horrível por qualquer agulha, monstro no armário ou pulo de paraquedas.  Por que nessa hora não há como fechar o olho, olhar pro lado ou não olhar pra baixo. O medo está em cada canto do teu pensamento.

Nessa hora, amigo, quem tá do teu lado não faz o medo passar, e nem é essa a função dessa(s) pessoa(s). Ela tá ali pra não te deixar paralisado pelo pânico. Ela tá ali pra te ajudar a ver que uma hora ou outra isso vai passar. Você vai ficar alegre ou triste depois que passar. Mas você vai ficar bem.

A cada dia que passa eu tenho mais certeza de que, na hora do desespero, não adianta correr pras montanhas. E por mais que a vontade seja de ficar sozinha e organizar o pensamento, cada vez que corro pra perto de quem amo em uma hora dessas vejo os sintomas do pavor irem se diluindo em uma realidade compartilhada que ainda pode ser de medo, mas em uma forma bem suportável.

Cada família tem uma dinâmica própria e uma forma de lidar com as coisas. A minha não é daquelas de entrar em profundas discussões pra buscar soluções. A gente fecha a cara e sai resolvendo as coisas, fazendo muita piada no processo que é pra espantar os maus pensamentos. E funciona. E eu tenho a melhor família que poderia ter.

Amo vocês!